Superqualificados: o outro lado do desemprego

O que fazer quando te consideram qualificado demais para uma vaga? 

Você precisa trabalhar, está disposto a exercer uma função que exige muito menos experiência e conhecimento do que já acumulou. Aceita até receber uma remuneração bem inferior ao seu último salário… Mas, por ironia do destino, o recrutador considera o seu currículo “over qualified” e te deseja boa sorte.

Podem parecer casos isolados, pois muitos recrutadores sequer oferecem feedback dos processos e, quando oferecem, nem sempre são sinceros quanto aos reais motivos para a recusa, mas esse paradoxo é muito mais comum do que se imagina neste cenário de crise.

A boa notícia é que eu conheço uma estratégia para superar esse desafio.

Mas antes de eu te falar dessa estratégia, deixa eu te contar uma história que aconteceu comigo há 10 anos, no ano de 2007.

Em 2007 eu era coordenador de marketing de uma editora de pequeno porte e me reportava diretamente ao dono da empresa. Na prática, exercia a função de gerente (que não existia formalmente no organograma) e era responsável por todo o marketing e também pela comunicação da empresa e dos seus produtos. Eu já havia me formado técnico em publicidade, estava cursando Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tinha um extenso portfólio nas áreas de criação e de planejamento. Também tinha vivência e experiência na área comercial e na organização de eventos e congressos.

Foi nessa época que eu tive contato com o livro As 5 atitudes para uma carreira espetacular. Dentre os ensinamentos que este livro apresenta, uma coisa em especial me chamou muito a atenção: se você pretende ser um alto executivo em uma grande corporação, precisa fazer sua carreira em grandes corporações, mesmo que comece por muito baixo. Dificilmente uma multinacional vai contratá-lo para uma vaga de sênior, ou mesmo pleno, se você só tiver experiência em pequenas empresas. Por outro lado, no segmento de PME, você será um profissional desejado e possivelmente bem remunerado, podendo alcançar altas posições.

E eu me encontrava exatamente nessa situação: muita experiência e um belo portfólio, mas trabalhando em uma pequena empresa. Só que o meu desejo na época era ganhar conhecimento e experiência trabalhando em grandes corporações. Na minha visão, aquilo iria me abrir oportunidades infinitas.

Como eu ainda não era formado e a conclusão da faculdade de Economia estava distante, eu não conseguia entrar em uma posição de analista (mesmo tendo experiência e conhecimento para exercer a função) e também não conseguia ingressar em programas de trainee, que exigiam que eu estivesse mais para o final do curso. Neste aspecto eu era pouco qualificado.

Então eu decidi tentar o ingresso em uma grande companhia como estagiário. Eu acreditava que ingressando como estagiário, rapidamente eu seria efetivado e promovido, pois a minha determinação e a minha motivação estavam turbinadas.

Eu também estava convencido que seria imediatamente sugado pelo mercado. Quem não gostaria de contratar um profissional jovem, mas com experiência de coordenação e gestão para fazer estágio na sua empresa? #SQN

No primeiro processo seletivo que participei fui surpreendido quando a recrutadora de um banco me disse: 

Marcelo, o seu currículo é muito bom, você tem muita experiência, mas estamos procurando alguém mais júnior. O seu último salário é 3x maior do que estamos oferecendo. Tenho certeza que você vai encontrar uma oportunidade mais adequada ao seu perfil.

Ou seja. Para ser analista eu era pouco qualificado. E para estagiário eu era superqualificado.

A ficha caiu rápido. Em vez de esbravejar e ficar indignado com a situação, eu comecei a pensar o que eu poderia fazer para ser aceito e tornar o meu currículo efetivamente atraente e desejado, sem espantar ou assustar o recrutador.

Eu me dei conta que eu estava querendo vender uma BMW para quem estava buscando um carro popular. Eu estava oferecendo uma Louis Vitton, pra quem queria só uma bolsa genérica para o dia-a-dia. E mesmo que eu estivesse disposto a cobrar pela BMW o preço de um carro popular, o comprador iria ficar muito desconfiado. O carro não combina com a garagem. A bolsa não combina com o estilo da pessoa. 

Então eu descobri e passei a usar a estratégia de adaptar o meu currículopara cada tipo de vaga e calibrar meu discurso nas entrevistas.

Foi assim que eu consegui ingressar no programa de estágio da Claro, em 2007. Tive que convencer os recrutadores de que, mesmo com uma boa bagagem eu teria humildade e disposição para ser excelente estagiário na empresa. E, apesar de estagiário, rapidamente eu assumi grandes responsabilidades na Companhia, mas isso é assunto para um outro post…

 

Talvez você saiba, talvez não, mas você pode ter mais de um currículo e mais de uma carta de apresentação. Na verdade, você pode ter quantos currículos desejar, desde que sempre apresente dados verdadeiros e informações corretas. O que você jamais pode fazer é mentir e utilizar informações falsas. E isso também vale para as entrevistas. Na verdade, isso vale para a vida!

O meu foco, até então, era destacar no meu currículo e nas entrevistas as minhas realizações e a minha experiência profissional, o que efetivamente aumentava o meu valor de mercado e me tornava um candidato muito acima da média para uma função de estagiário. Mas ao mesmo tempo, isso me distanciava da vaga.

A partir daquele feedback, eu mantive as informações relevantes sobre a minha experiência, mas passei a dar muito mais ênfase aos meus objetivos profissionais: fazer carreira em grandes empresas, gerar valor e resultados para a organização, crescer e desenvolver-se profissionalmente, além de mais alguns específicos.

Eu também ajustava o meu currículo para cada tipo de empresa e de segmento. Os ajustes englobavam o design, a apresentação, o vocabulário e até a foto, mas sempre mantendo informações verdadeiras e precisas.

As empresas e os recrutadores têm receio em contratar um profissional superqualificado e, em pouco tempo, ele conseguir uma coisa melhor e pedir demissão.

No meu caso, depois que identifiquei essa objeção, procurei comunicar de maneira clara e assertiva para os recrutadores que eu realmente queria aquela vaga. Eu não poderia prometer a eles que não pediria demissão se surgisse uma proposta melhor, mas me comprometi a não procurar outras oportunidades pelo período de 6 meses. Procurei convencê-los de que seria um excelente negócio para a companhia me contratar, tendo em vista a minha experiência e a minha vontade de aprender e crescer naquela organização.

Acredito que para muitos não seja o caso de ingressar em um estágio, mas essa estratégia pode ser útil para alguém com experiência de gestão, ou alta gestão, que esteja disposto a assumir um cargo de analista, ou assistente.

É possível que você seja mais qualificado e tenha mais experiência que o gestor da área, ou até o diretor da empresa. E, embora uma prova de sua inteligência seja contratar pessoas mais inteligentes que você, essa máxima nem sempre se verifica no mundo real. Muitas pessoas tem medo de trazer outros cérebros para suas empresas, pois seus dogmas poderão ser alvo de questionamento.

O objetivo dos recrutadores é acertar nas suas escolhas e admitir a pessoa certa não é tão fácil. Contratar alguém com doutorado para lecionar na primeira série do ensino fundamental pode não ser uma boa ideia, a menos que você tenha argumentos profissionais sólidos para justificar a sua contratação.

Dramas pessoais e dificuldades financeiras podem atrapalhar muito mais do que ajudar. Evite estes argumentos e, se for utilizá-los, encontre um viés positivo para valorizar sua força de vontade e senso de superação.

Para resumir, o recrutador precisa acreditar nas suas intenções e você precisa convencê-lo de que não pretende sair em seguida para uma coisa melhor. Da mesma forma, ele precisa entender que você pode somar, ensinar, mas também é capaz de aprender com o grupo e com a empresa, por mais experiente que você seja. Uma forma de contornar isso é demonstrar o quanto você é flexível e humilde para ajudar e ser ajudado.

Foi assim que eu consegui. Adaptei meu currículo e calibrei meu discurso na entrevista. Ou seja, eu assumi a responsabilidade e busquei fazer diferente. Poderia ter ficado reclamando da falta de inteligência alheia, mas procurei aprender e implementar o aprendizado.

E é isso. Se este texto foi útil para você, deixe um comentário, curte e compartilha com seus contatos. Ele também pode ser útil para alguém que você conheça.

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